segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Cachoeiro Cult: arte e cultura na capital secreta do mundo

Considerada uma das cidades-berço da cultura popular nacional, Cachoeiro recebeu inúmeros apelidos para fazer jus à sua fama de geradora de sucessos. Só que isso foi no passado, hoje uma nova leva de artistas mostra que quem bebe das águas do Itapemirim tem o sangue renovado pela poesia da cidade. 


O nome é grande: Cachoeiro de Itapemirim. Parece querer ostentar alguma coisa já na apresentação. A cidade está localizada ao sul do Espírito Santo, um estado cujo âmbito cultural, hoje, não é tão efervescente assim, comparado aos estados vizinhos – Rio, São Paulo, Minas, Bahia. Tem casa colonial, prédio moderno, rio que passa no meio da cidade – o Rio Itapemirim – tem que gente que gosta, gente que odeia e tem até os bairristas. Esses não deixam a cidade passar desapercebida: tomam seu café no Mourad’s e discutem política; não esquecem, nunca, que respiram o ar do local onde nasceu Roberto Carlos, Rubem Braga, Jece Valadão, Luz del Fuego e tantos outros. É uma cidade de gerações. A geração de ontem desconhece o fato de que hoje se faz algo bom, excelente. A geração de hoje sabe do passado através da escola. A geração de hoje faz. Faz arte, cultura e exporta. Exporta muito. Leva música, teatro, literatura, cinema, artes visuais para além das geografias e do calor típico cachoeirense. Leva o calor humano para novos públicos que faz a identidade cultural de Cachoeiro ganhar sangue novo, qualidades além do registro na experiência de se fazer arte. O projeto em si apresenta uma fórmula nada autêntica: reunir todos os principais artistas atuais de Cachoeiro, cada um em sua linguagem, para apresentar o que já fazem cotidianamente. Entretanto, tudo isso junto, gratuito, para todos na cidade que aprendeu ao longo dos anos a não dar valor à cultura. Seus hábitos são ignorados, a arquitetura é demolida, não respeitando a memória. Árvores são retiradas, placas pichadas. A música é só aquilo que se apresenta no parque de exposições: megalomaníacos, pirotécnicos. O teatro é o que vem de fora, do mundo dos famosos e o cinema é hollywoodiano. E dublado. Esses males não afetam apenas Cachoeiro. São inconvenientes mundiais cuja gestão cultural vem estudando como solucionar essa falta de hábitos culturais ao longo das últimas décadas. A área da economia criativa é a mais recente ciência que viabiliza novas formas de produção formação de público para as artes onde ganha-se dinheiro com teatro, concertos, artesanatos que carregam em sua apresentação um “algo a mais”. Assim, o diferente, algo que todos buscam hoje constantemente, seja o atrativo principal do consumo. E, aqui, consome-se gastando dinheiro e alimentando-se do intangível, de arte. É através de um olhar contemporâneo, observando com atenção o que acontece hoje, agora, na cultura do município que nasceu a primeira edição do projeto Cachoeiro Cult. Foram ações que aconteceram do dia 14 de novembro a 13 de dezembro de 2014. É impossível não falar de cultura capixaba sem abrimos um capítulo para Cachoeiro. Com movimentos artísticos que existem, se produzem e mantém uma constância de criação, mas que não tiveram ainda a oportunidade de se reunirem em um evento em comum na sua cidade sede, a programação seguiu gratuita. É o primeiro evento de um novo movimento cultural para Cachoeiro e para o Espírito Santo.

(Texto publicado no jornal A Tribuna de 06 de dezembro de 2014 e na Revista Cachoeiro Cult de janeiro de 2015)

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