domingo, 22 de dezembro de 2013

Carta aberta

ONDE TUDO ACONTECE (?)
Acabo de ser expulso de minha apresentação teatral no lugar onde ela acontecia. Motivo fútil: a peça atrapalha a vitrine da loja. A ordem vinda de pessoas fúteis: querem VENDER. Fomos EXPULSOS! Em nossa estreia de espetáculo, passamos por isso. A peça se dava na calçada do Shopping Cachoeiro. A administração do shopping foi muito gentil com meu grupo, abraçou a proposta com força e amor, dando total apoio ao nosso teatro, ao nosso ofício. Ao contrário da loja cuja vitrine está virada para a rua. O absurdo que, segundo eles, causamos, estourou na parte mais fraca da corda: fomos expulsos aos 30 minutos de apresentação.

Não tive o que dizer. Não tivemos. Recolhi o cenário, avisei às atrizes e saímos de lá. O público tomou as dores, se revoltou, se viu no nosso lugar e queria tomar seus direitos que, a essa altura, já nem eram mais nossos, tamanha nossa perplexidade. Começo a pensar no que Cachoeiro é. Quem tem lugar nessa cidade? Que espaços existem para que as pessoas possam verdadeiramente existir, se manifestar. Olho para o passado e percebo que não é um problema de agora. Já leram a biografia de Luz del Fuego, a dançarina do povo, a que manifestava sua criação despindo-se e interagindo com cobras? Quem tem coragem de fazer isso? Sabiam que quando ela descia a rua dos Caçadores, no centro da cidade, todos a olhavam com preconceito e nojo somente porque ela era ela própria? Foi se sentir livre fora daqui. E Sérgio Sampaio? Do que o chamavam quando era vivo e com seu violão tocava nos bares da cidade? Doidão, maluco, estranho... E até hoje chamam. Os que conhecem, porque há os que não conhecem Sérgio, Luz e tantos outros artistas daqui. Uma cidade onde boa parcela de seus 200 mil moradores desconhece a memória cultural e artística cachoeirense. Roberto Carlos, antes de ir para o Rio, era quem? Um menino bonitinho que cantava na Rádio Cachoeiro. E só. É preciso lutar aqui a favor do respeito, do reconhecimento só de sua existência, sem precisar pagar ingressos, comprar nada. É preciso invocar os amigos, os parentes, os amigos dos parentes e amigos dos amigos para assistir, para ver, para ter a presença do corpo ali, parado, criando público, que seja, para ver a sua criação. É preciso escrever projetos e rezar, orar, pedir aos céus para que eles sejam aprovados. É preciso pedir esmola, quer dizer, pedir patrocínio e apoio aos empresários da cidade para que sua ideia ganhe corpo. Com o adicional de ter que explicar o que é arte para o indivíduo em uma aula de cinco minutos. É preciso viajar para fora da cidade, do estado, do país, do continente, voltar com fotos, troféus, falar línguas diferentes, ter amigos estrangeiros, para quem está aqui começar a perceber que há um "esforço" sendo feito. É preciso se ajoelhar e pedir um espaço na rua para o seu movimento. É preciso pedir um pouco de respeito, porque eu também sou um cidadão. E fomos expulsos.

Cheguei em Cachoeiro no fim de 1999. E estou indo embora. Deu. Já era um plano de muitos anos, mas que agora se dá com veemência. Diria até com mais gosto. Uma cidade que olha para o passado e reconhece que cultura são grandes shows nacionais no Parque de Exposição, que teatro é quando um "global" sobe ao palco do Teatro Rubem Braga cobrando ingressos de 60 reais e está tudo bem. Uma cidade que expulsa artistas em sua estreia, cujo espetáculo conta as histórias de personagens cachoeirenses, homenageando a cidade com uma obra autêntica, feita por pessoas daqui sobre pessoas daqui. Penso em Rubem Braga, Newton Braga, Roberto Carlos, Sérgio Sampaio, Luz del Fuego, Jece Valadão, Carlos Imperial, Raul Sampaio. Penso em Charles Fricks, Amélia Barreto, Milena Paixão, Nayara Tognere e tantos outros, famosos ou não, que saíram de Cachoeiro para crescer, para respirar melhor. Penso em como é difícil viver numa cidade onde o artista tem espaço, mas a cidade não dá espaço para o artista. As pessoas, principalmente, não dão espaço para o artista. As pessoas que mandam, que insistem na teoria da hierarquia, de manter o sobrenome, a reputação e o escambal. Não quero ficar em uma cidade onde nem tudo acontece.

Luiz Carlos Cardoso - diretor do Grupo Anônimos de Teatro
Cachoeiro de Itapemirim/ES. 20 de dezembro de 2013.

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