De volta pra casa: espetáculo “A Metamorfose” se apresentou em Cachoeiro


Peça do Grupo Anônimos de Teatro realizou temporada em sua cidade-sede nos meses de julho e agosto, com entrada gratuita


Transformado em um inseto monstruoso, um homem se desespera em cumprir o que seu chefe e sua família esperam dele. Em cena, o ator Luiz Carlos Cardoso narrou a jornada de Gregor Samsa, personagem de A Metamorfose, espetáculo que levou o mesmo nome do texto original de Franz Kafka. A adaptação do Grupo Anônimos de Teatro, com direção de Ivna Messina e dramaturgia de Fernando Marques, voltou a Cachoeiro de Itapemirim, cidade onde estreou em 2023. A temporada contou com seis apresentações gratuitas nos meses de julho e agosto, sendo duas destinadas a escolas e quatro abertas ao público.

No ano em que o grupo completou 18 anos de existência, Luiz sublinhou a importância da volta para casa. “Inevitavelmente, esse movimento acontece com nossos espetáculos: estreamos em Cachoeiro sempre, nossa cidade-sede, onde queremos que seja o berço de nossos trabalhos. Depois, saímos pro mundo, compartilhamos nossa experiência de cena com diversos públicos, e aí voltamos abastecidos e carregados a Cachoeiro”, contou o ator, que também ressaltou a maturidade e a organicidade que o espetáculo e ele próprio ganharam ao longo das apresentações, após três anos de sua estreia.

Em cena, sob um mar de gravatas, o personagem da peça A Metamorfose expôs o peso de suas obrigações em uma sociedade opressora. Segundo o dramaturgo Fernando Marques, o recorte do tema com foco na posição de um trabalhador foi uma escolha consciente e primordial na adaptação do texto original, que permite muitas abordagens e leituras. Ele apontou que, publicado dois anos antes da Revolução Russa de 1917, o texto permanecia muito atual, especialmente diante do debate sobre os direitos dos trabalhadores e a escala de trabalho.

“Aquele homem se desespera em ser um bom funcionário, em ser bem-visto por seus superiores, em manter o ordenado com que sustenta a família. Desprovido da humanidade, posto em um corpo com o qual não sabe lidar, é aí que estão as preocupações de Gregor Samsa. Por outro lado, quando deixa de prover a família e ela descobre meios de se manter sem ele, Gregor se torna mais que dispensável – ele é indesejado”, apontou Fernando.

A direção de Ivna Messina, artista da dança, combinou imagens, gestos e movimento, que, somados à interpretação eloquente do ator, deram corpo ao texto, ora conduzido por um narrador, ora por personagens. Somaram-se à cena a iluminação de Daniel Boone e a caracterização e o figurino de Antônio Apolinário.

“Eu sempre digo que, pra mim, foi um trabalho de descobrir uma coreografia da palavra. E também de aproveitar o que Luiz me oferecia, o que o corpo dele me oferecia. Acho que ele é um ator com uma capacidade vocal muito forte e esse é um lugar muito confortável pra ele, então eu quis trazer uma perspectiva de ele trabalhar com recursos diferentes, se aprofundar no que seria o recurso gestual, corporal e trazer esse corpo mais maleável, que pudesse ir se transformando em cena”, explicou a diretora.

O espetáculo também contou com trilha sonora composta pelos músicos integrantes do Grupo Anônimos Alessandra Biato e João de Paula Junior, que, na maior parte das apresentações, estiveram em cena tocando seus instrumentos ao vivo.

“A trilha sonora sublinha um texto denso, que vez ou outra provoca e ativa a atmosfera às vezes sinistra, às vezes irônica, às vezes seca do texto. Criar e executar trilhas ao vivo é uma característica comum do nosso grupo. Sempre que possível, eles estão em cena. Música e teatro são eixos centrais de nossa criação”, destacou Luiz.

Além das apresentações, a passagem do espetáculo por Cachoeiro de Itapemirim também promoveu gratuitamente a oficina “Interpretação para Solos Teatrais”, realizada nos Centros de Referência da Juventude (CRJs) dos bairros Rubem Braga e Zumbi. A atividade foi destinada a pessoas maiores de 16 anos, com ou sem experiência artística, interessadas nas artes da cena, em processos criativos e nas discussões relacionadas a corpo, texto e performance.

O projeto foi aprovado no Edital de Seleção de Projetos Culturais nº 018/2024 – Lei Rubem Braga, de Cachoeiro de Itapemirim/ES.






 





 

Um homem desperta de sonhos intranquilos metamorfoseado num inseto monstruoso. Assim era visto por sua família. Assim era visto pelo gerente do trabalho. Pela empregada, pelos inquilinos que ocupam sua casa, pelo mundo. Neste espetáculo – um solo –, conta-se a sua história; o corpo reage, a situação se instala: quem realmente se metamorfoseia enquanto o tempo passa, enquanto um novo indivíduo surge, quem se transforma com o passar do tempo? O inseto monstruoso no qual se tornou Gregor Samsa está em cena: ele é um homem.


FICHA TÉCNICA

Direção: Ivna Messina

Dramaturgia: Fernando Marques

Intérprete e Direção de Produção: Luiz Carlos Cardoso

Trilha Sonora: Alessandra Biato e João de Paula Junior

Cenário, Maquiagem e Figurino: Antônio Apolinário

Iluminação: Daniel Boone

Operação de luz: Daniel Boone e Avelã, a Cremosa

Identidade visual: Farley José

Assessoria de Imprensa: Patricia Galleto

Videoarte: Diego Scarparo

Produção executiva: Avelã, a Cremosa

Realização: Grupo Anônimos de Teatro


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